A respiração intuída

É curioso quando são os artistas que se auto-impõem um trabalho que demore anos a concretizar. No universo da fotografia moderna e contemporânea, são muitos os casos de encomendas espectaculares que resultam em trabalhos monográficos que de forma mais ou menos tensiva respondem ao que foi encomendado. No caso do projecto agora apresentado por André Cepeda, lembro-me de começar a dialogar com ele sobre os seus contornos há mais de quatro anos. Algumas imagens soltas remetiam para espaços da cidade do Porto, onde vivíamos, espaços normalmente exteriores, mas que de certa forma faziam parte de uma certa intimidade: pátios interiores, plantas em pequenos recantos ao ar livre, elementos de uma banalidade exasperante a que o artista conferia uma dignidade própria.
Depressa percebi que a sua intenção passava por começar a sistematizar um pouco as deambulações por uma cidade que lhe passava em frente aos olhos, mas cujas entranhas desconhecia. Começou então, um processo de demarcação física do território, bem como o encontro com os personagens que habitam essa cartografia convencionalmente escondida dos transeuntes.
Um dos fenómenos típicos do urbanismo portuense na transição do século XIX para o século XX são as chamadas ilhas: numa entrada de rua relativamente dissimulada, estende-se uma fileira grande de casas com condições de habitabilidade mínimas, assim criando um pequeno nódulo urbano sempre virado para o interior (ao contrário de casos similares de bairros operários de Lisboa, organizados através de pátios). Este desenho urbano recupera algumas das soluções cujas origens remontam ao auge da Revolução Industrial no Reino Unido (as famosas back to back houses), ainda que a escala no Porto corresponda a uma visão todavia mais pequena e miserabilista em muitos dos seus casos. Tratou-se de dar resposta a uma crescente industrialização da cidade, que hoje se tornou absolutamente obsoleta e cujos vestígios não mais são do que relíquias de arqueologia industrial. Na verdade, ao operariado praticamente desaparecido, corresponde hoje uma margem significativa de população envelhecida, desempregada, ou simplesmente economicamente desfavorecida.
Sublinhe-se, no entanto, que o sentido de comunidade nestes locais pode ser pujante e que nos nossos dias, alguns destes espaços se encontram em condições bem mais agradáveis do que no período de construção original, onde serviços de canalização de água e sanitários eram, quando muito, partilhados em soluções de recurso.
Foi, então, a partir dessa demarcação territorial e urbanística que André Cepeda começou a trabalhar.
Como referi, sempre me impressionou o modo como foi desenvolvendo o projecto: a sua disciplina e rigor conceptual obrigaram-no a dias e dias de trabalho na busca de locais que lhe dissessem qualquer coisa, na procura daquele pormenor que ele tão bem sabe captar e que imediatamente remete a imagem em questão para um sentido de universalidade pungente.
Ao longo deste processo surge uma questão primordial, a segunda parte deste eloquente díptico: a relação com as pessoas, o modo como se envolveu obstinadamente com o exercício do retrato. Aqui o autor imerge num universo que lhe abrirá as portas para o sentido último deste trabalho. No meio de um universo corroído pela tristeza e pela melancolia, pelo abandono e pela solidão, surgem poses e olhares que indiciam a vertigem de um percurso onde a intimidade ainda detém o poder de lamber cicatrizes demasiado expostas. Nas imagens de André Cepeda a sexualidade não é exposta enquanto elemento de exploração capitalista, ainda que neste contexto essa dimensão esteja frequentemente presente para obviar ressacas da toxicodependência Os corpos expõem-se como ultimo reduto de dignidade pessoal, a própria relação sexual é um momento suspenso na intolerável respiração do quotidiano.
Curioso processo, este: são os interiores claustrofóbicos, caóticos, são as marcas de práticas autodestrutivas, os momentos de reinterpretaçao de naturezas-mortas que André Cepeda capta que rasgam a convencionalidade do espaço privado tal como o concebemos. São esses, verdadeiramente, os momentos mais ásperos deste projecto. O mesmo se passa com os espaços exteriores: espaços sem saída, casas improváveis, céus cinzentos, amálgamas urbanísticas sem sentido, densificam a recepção de uma realidade que muitos conseguem elidir, mas que muitos mais são obrigados a carregar no seu horizonte de memórias e de vivência diárias.
Paradoxalmente, como se referiu no início, o artista consegue sempre manter-se num registo que não é demasiado pessimista e comiserativo. Seria muito mais fácil mostrar a miséria e a degradação em estado bruto. Mas esse é o território do jornalismo sensacionalista, dos especuladores emocionais e dos voyeurs. Cada imagem neste projecto reproduz um momento de partilha. Adivinhamo-lo na profundidade dos olhares. A distância do fotógrafo e do fotografado é praticamente palpável, os murmúrios, as escassas palavras no momento de maior concentração, e o silêncio, a certeza do silêncio, ressaltam de forma indiscriminada. Aqui só chega quem partilha. E esta partilha é acima de tudo um acto de confiança.

Nesta viagem não ficamos a conhecer melhor a cidade. Nada sabemos dos personagens retratados. Ganhamos, isso sim, a certeza de que a arte detém essa capacidade única de nos devolver um mundo em forma de interrogações Como me posiciono perante tal realidade? Que realidade é esta? A do autor? A dos sítios e das pessoas que povoam as obras? Não, a força deste projecto consiste precisamente na sua dimensão atópica e intemporal. Porque nele se joga inteligentemente com a própria história da arte – poderíamos aqui traçar uma genealogia formal e iconográfica mais ou menos evidente nalguns dos trabalhos -, universalizando particulares.
O real não ficcionado. Mas como não ficcionar este real? Sugados para o seu interior, para a coerência interna do projecto na sua complexidade aqui apresentada em livro, é o espectador o grande argumentista. À transitoriedade do espectacular, à mediocridade da digitalização do mundo em parte significativa da fotografia contemporânea, responde-nos André Cepeda com a urgência da partilha, estética, ética e, em última análise, política.

Miguel von Hafe Pérez