Há uma longa e importante tradição na fotografia que muitas vezes é esquecida, permanece desapercebida ou é subexposta. Trata-se da tradição de dar longos passeios a pé (geralmente numa cidade) com a máquina fotográfica à procura das imagens “certas”. Esta tradição é crucial para a chamada “fotografia de rua” mas os fotógrafos que deambulam muito não são sempre necessariamente fotógrafos de rua. Podem ser fotógrafos documentaristas, fotojornalistas e até talvez fotógrafos da natureza. Com algumas excepções, a ideia de deambular advém do facto de não saberem ao certo que coisa vão fotografar até a verem. É claro que têm o seu interesse próprio ou estão a trabalhar num projecto específico. É provável que tenham em mente uma ideia aproximada do tipo de fotografias que vão tirar. Mas a decisão final não é tomada até verem isso diante dos olhos. Isso pode ser uma situação particular, um acontecimento ou um grupo de pessoas e/ou objectos. A imagem que aparece no enquadramento do visor “ajusta-se” de algum modo à imagem mental, mesmo que diga respeito a algo de totalmente novo e inesperado. Ou pertence a uma série de imagens previamente imaginadas.
Contudo, quando de facto decidem tirar uma fotografia, em geral acontece exactamente o oposto. Sabem que é a imagem certa apenas um instante antes de premirem o botão. O acto efectivo de tirar a fotografia é, pois, muitas vezes uma acção muito rápida e intuitiva, baseada numa vasta experiência de olhar e ver, mas também naquilo a que podemos chamar um “pensamento visual “ ágil.

A série de André Cepeda sobre a cidade de Bruxelas trouxe-me à ideia esta prática que é tão típica do medium da fotografia – quer a consideremos uma forma de arte, uma prática cultural ou uma compulsão muito pessoal. Cepeda deambulou por Bruxelas em 1999, durante uma comissão no âmbito do programa de Bruxelas, Capital Europeia da Cultura. A sua tarefa era produzir imagens que de alguma forma reflectissem a identidade cultural da cidade, ou pelo menos questionassem essa identidade de um modo inteligente. Isto significava que o artista não podia (nem queria) fotografar os óbvios lugares-comuns turísticos nem as ainda mais óbvias expressões “oficiais” do poder burocrático patentes na arquitectura “política” da União Europeia. Em lugar disso, André Cepeda decidiu concentrar-se na vida fugaz das ruas da cidade e em alguns “não-lugares”, locais quase demasiado banais para serem sequer notados, quanto mais fotografados (Bruxelas é particularmente forte neste ponto).
Se pudéssemos distinguir dois grupos de “peões” – as “testemunhas” ou “espectadores” versus os “investigadores”, “filósofos” ou “analistas –, André Cepeda claramente pertence ao segundo.

Os fotógrafos profissionais têm uma vasta colecção de imagens armazenadas na memória. Eles reconhecem todos os tipos de imagens da autoria de fotógrafos cujo trabalho viram em livros, revistas, exposições, painéis publicitários e afins. É possível que, enquanto caminham pela rua, “vejam” aqui uma imagem de Robert Frank, ali “uma Winogrand”, “uma Doisneau” ou “uma Cartier-Bresson”. No nosso mundo saturado de imagens, fazer uma nova fotografia significa em larga medida NÃO fazer uma dos milhares e milhares de imagens já existentes que a nossa memória continuamente reproduz – mas quase ao mesmo tempo tentar esquecer essas imagens, estar “em branco” quando realmente se tira a nova fotografia (ou intencionalmente incluir, de uma forma inteligente, referências visuais a outras imagens históricas e/ou contemporâneas). Esta é uma prática muito difícil, associada ao mesmo processo de “pensamento visual” ágil a que antes me referi. Para fotógrafos profissionais, trata-se de uma dimensão básica da sua criatividade. É interessante ver como a série Bruxelas de André Cepeda funciona à luz do que acabo de descrever. Evitando lugares-comuns e referências óbvias a qualquer fotografia já existente que possa ou não estar armazenada na nossa memória colectiva, o artista tira uma fotografia como a das quatro raparigas em pé, que mais ou menos se entreolham. É claro que esta imagem pertence a uma série, não deve ser vista isoladamente. Mas, ainda assim, é interessante olhar para uma imagem que não tem praticamente nenhum valor documental – na verdade, a cena poderia passar-se em qualquer lugar, em qualquer cidade. Trata-se de um momento transitório e por certo não um “momento decisivo”. Que significado tem, então, esta imagem? Porque fotografou André Cepeda isto? Terá pensado que a cena era esteticamente agradável? Terá gostado das raparigas? Conhece-as? Está a armar-se em conquistador? Elas são turistas ou estudantes locais? Estão a discutir algum assunto? Política, arte, moda ou simplesmente o lugar onde ir de seguida? O seu semblante é bastante sério (embora não consigamos ver o rosto da rapariga mais próxima na imagem, apenas a vemos de costas). Não conseguimos mesmo divisar o significado da fotografia. Na verdade, quando pensamos nisso, é pouco provável que André Cepeda tenha querido que a fotografia tivesse um só significado. A imagem admite diferentes interpretações e projecções mentais de vários significados simbólicos ou alegóricos, como “juventude” (Bruxelas tem futuro) ou “conversa” (enquanto acto civilizado e, quando alargado à troca de ideias e opiniões, base da democracia). Mas poderia também tratar-se de uma tomada de posição sobre a fotografia e o acto de tirar uma fotografia: o voyeurismo (nós, enquanto observadores, somos excluídos do grupo mas estamos a espreitar por cima de um ombro), o acto caçador de um fotógrafo masculino, o momento fugaz (sugerido pela luz do sol nos ombros, nos braços e nos rostos das raparigas). A deambulação de André Cepeda pela cidade encontra o seu contraponto na nossa divagação mental através da imagem e em torno dos seus possíveis significados. A sua proeza artística é ter conseguido proporcionar-nos alguns deveras curiosos e empolgantes.

Frits Gierstberg
Historiador de arte e crítico holandês, dirige o serviço de exposições do Nederlands Fotomuseum, em Roterdão. Foi comissário da Foto Biënnale Rotterdam em 200 e 2003. Comissariou várias exposições internacionais de fotografia contemporânea e publica regularmente em revistas e livros. Vive e trabalha em Roterdão, na Holanda.

Tradução do inglês de Maria Ramos