Jean-Louis Godefroid: Quais foram os elementos que se revelaram determinantes na tua orientação para a prática da fotografia de autor?
André Cepeda: Os meus primeiros contactos com a fotografia ocorreram graças aos Encontros de Fotografia de Coimbra, onde a minha mãe era secretária do director. Lembro-me de ter ido ter com ela e de ter podido assistir àquele ambiente em torno da elaboração de um festival: a recepção das provas, a colocação nas molduras, o acto de pendurar as fotografias… Foi em 1989, com a idade de doze anos, que comecei a ajudar a equipa do festival, por ocasião da exposição de Robert Frank. Fiquei marcado por aquele contexto completamente novo para mim. As imagens faziam-me descobrir um mundo novo, uma realidade nova, cuja existência ignorava e à qual eu era muito sensível.
Queria entender o significado das imagens, o que elas nos transmitem, de que forma as interpretar e como compreender a minha relação com esses universos criados por todos aqueles fotógrafos.
Depois daquela primeira experiência, comecei imediatamente a fotografar. Na realidade tirava fotografias de fotografias, reproduções. Lembro-me de visitar as exposições e de fotografar as imagens. Penso que era para tentar compreender melhor a composição e as formas das fotografias das quais gostava verdadeiramente muito, como por exemplo as de Ralph Eugene Meatyard. Ele fotografava os seus filhos, criando, através da ficção, um universo um pouco bizarro, misterioso. O seu trabalho é fundamental e acompanha-me sempre naquilo que faço hoje: nunca dizer tudo, nunca mostrar tudo, para deixar lugar à imaginação do espectador…

JLG: Como continuaste a tua formação?
AC: Trabalhei durante vários anos no festival de Coimbra, até aos meus 18 anos. Depois fui viver dois anos em Bruxelas, onde frequentei vários workshops e um curso na escola de Arte de Ixelles, o que foi, do ponto de vista técnico, muito importante. A quantidade de informações que encontrei em Bruxelas foi determinante para os anos seguintes. Comecei a fotografar com o sistema Polaroid Positivo/Negativo, a filmar com Super 8, a poder fotografar muito e a experimentar outras técnicas. Depois instalei-me no Porto, onde fiz o meu último ano de formação. Um mês mais tarde comecei a trabalhar no Centro Português da Fotografia, no Porto, onde permaneci três anos. Antes de ser fotógrafo, queria compreender todos os mecanismos ligados à fotografia, documentar-me, formar-me, montar exposições, compreender bem todo o processo e conhecer o máximo de fotógrafos possível.
Tirei vários cursos de impressão a preto e branco e a cores. O laboratório sempre me interessou e ainda hoje é esse o caso. A minha abordagem à fotografia não se resume à imagem, mas também a tudo aquilo que a rodeia: a construção, as provas, a montagem, os livros, tudo o que lhe dá sentido, que faz pensar.

JLG: Enquanto autor, qual foi a tua primeira realização significativa?
AC: Aos 17 anos comecei a procurar uma linguagem pessoal com a fotografia. Já trabalhava muito para melhorar a minha prática. Em 1999, parti um mês para Moscovo. Tratava-se, para mim, de uma espécie de viagem iniciática, por ocasião da qual pude começar a trabalhar naquilo que queria: o meu objectivo era o de realizar o máximo de registos de imagem, de materializar tudo aquilo que sentia, de fazer “sair” todas as influências dessas imagens que eu tinha na cabeça. Produzi imensas imagens: dois a três filmes de 35 mm por dia, e ainda alguns de 120.
De Moscovo regressei a Bruxelas, onde, no âmbito do programa de residência de artistas no Espace Photographique Contretype, realizei o meu primeiro projecto que daria lugar a uma exposição e a uma publicação, com o título Anacronia. Foi aí que tudo verdadeiramente começou.

JLG: Agora terminas um trabalho que tens levado a cabo há vários anos, no Porto, reagrupando paisagens, cenas interiores e retratos. Como é que construíste esse projecto?
AC: Esse projecto aconteceu muito naturalmente. Tratou-se de uma necessidade de fotografar o que se encontrava à minha volta, inspirando-me no quotidiano. As pessoas que fotografei, cruzei-me com elas, abordei-as na rua e nos locais que frequentava. Há treze anos que vivo no Porto e sempre fotografei e observei a cidade, mas para este trabalho interessei-me por uma realidade mais específica. No Porto, existe aquilo a que chamamos de “Ilhas”, que surgiram no século XIX, e massificadas com a chegada de população do Norte de Portugal para trabalhar na cidade. É um fenómeno bastante curioso: cada ilha é composta por uma espécie de corredor, com apenas uma porta que dá para a rua, com pequenas casas de apróximadamente 16 m2 construidas em fila com instalações sanitárias colectivas. Hoje em dia há todo o tipo de pessoas que vive nas “ilhas”. Muitas sempre ali viveram, outras encontraram ali a única forma de ter um tecto. Uma grande parte da população é pobre e envelhecida. Há muitas pessoas a viver do rendimento mínimo e de trabalhos precários. Isto faz parte da energia desta cidade. A vida decorre como que numa ilha, completamente isolada: os locais e as pessoas são pouco acessíveis, é uma vida à margem da sociedade, tanto social como individualmente. Esse isolamento deve-se à pobreza, ao álcool e à droga. Comecei esse projecto ao passar nessas ruas, onde não se passa naturalmente, fotografando primeiro as casas, em seguida os interiores e depois as pessoas. Espantosamente, são locais onde me sinto bem, apesar de haver riscos e perigos: esta fronteira difícil de atravessar fascina-me.

JLG: Em que medida se encontra o teu trabalho ligado à tua vida pessoal?
AC: Tenho pensado muito nisso. Uma vez li uma entrevista do realizador argelino Abdel Kechiche: afirmava ele que o seu cinema era o reflexo da sua vida, da sua história pessoal. O meu pai morreu quando eu tinha três anos e eu vivi coisas muito fortes, com muito sofrimento. Não gosto muito de analisar essas emoções, mas penso, por vezes, que isso fez nascer em mim um sentimento de revolta. Gosto de estar com aqueles que têm uma vida difícil, que têm histórias para contar. Viver é pensar todos os dias no meu trabalho como fotógrafo, é ler o pensamento dos outros, escrever as minhas ideias, viver experiências, compreender como fazer as coisas. Não me consigo imaginar sem fazer o meu trabalho. O que é de facto importante, o que te faz acordar todas as manhãs, o que me prende aqui, de que forma continuar a evoluir? São estas as questões que coloco neste trabalho e, para mim, a resposta encontra-se nos sentimentos que experimentamos em relação aos outros, no amor pela família, coisas básicas e essenciais.

JLG: Ao observar as tuas fotografias, reparo que são muito silenciosas, como que apartadas do ruído do mundo…
AC: É no silêncio que me encontro. Tenho recordações visuais dos locais e, quando fotografo, não há som - estou na paisagem e sinto-me bem nesse silêncio. Quando sonho, lembro-me das imagens, mas nunca dos sons. A minha relação com a vida sempre foi sobretudo visual, mas também gosto muito de música: toco guitarra, é muito importante para mim, mas isso é outra história…

JLG: Quando olhamos para as casas que fotografas na rua, as portas, as janelas, os cortinados estão fechados. Há a mesma sensação de vazio nas paisagens que há nos olhares.
AC: É o que sentes aqui quando andas pela rua, porque aqui está tudo fechado, abandonado, para venda. A população do Porto é de mais ou menos 216 000 habitantes, numa cidade enorme, e que já teve a sua hora de glória. Na sequência de uma forte especulação imobiliária, a periferia desenvolveu-se, e muita gente acabou por abandonar o centro do Porto por falta de trabalho. Reina um sentimento de desolação, é muito duro cruzarmo-nos todos os dias com pessoas que perderam toda a esperança, que se encontram fechadas, tristes, perdidas. Trabalharam toda a sua vida e no fim não têm nada, é muito duro. Quando vim viver para aqui, não conhecia esta realidade. Não é fácil, mas tudo isso me inspira. É importante reflectir sobre a situação social e a crise que vivemos hoje: as diferenças sociais, a razão dessas vidas difíceis. As minhas fotografias são o reflexo da época em que vivemos. Depois da Revolução de 1974, havia a esperança de um mundo melhor. Após diferentes crises e adaptações difíceis as pessoas já não sabem onde estão e para onde vão.

JLG: Trabalhas com câmara técnica, nos interiores, como é que procedeste?
AC:. Gosto muito de trabalhar com essa câmara porque se trata mais de uma questão de construir as imagens do que de as captar: é um processo muito lento e minucioso. Gosto de ter tempo para sentir o espaço, de observar o sujeito, de trabalhar o enquadramento, de esperar pela luz, de sentir a imagem que vou fazer.
Um registo de imagem pode durar uma a duas horas. Nas imagens de interiores sentimos que há uma vida humana, movimentos, objectos dispostos que indicam que ali se passou alguma coisa. No que diz respeito aos retratos, estabeleço uma relação de confiança com os modelos. Falamos muito, eles contam-me a vida deles, o que me ajuda a compreendê-los, reflectimos sobre o local do registo de imagem, escolhemos uma rua ou uma divisão, e depois as coisas passam-se de forma muito natural, é simplesmente um momento que passo com eles, em que capto os seus olhares vazios e perdidos no espaço mental.

JLG: Por que razão escolheste Ontem como título para este novo trabalho?
AC: Quanto mais avançava no projecto, mais sentia nos locais e nas pessoas que encontrava uma ausência de pontos de referência em relação ao tempo. Como gerir o tempo, ou antes, como passar o tempo com o seu corpo e os seus pensamentos, o que fazer se isso não for, talvez, refugiar-se, esconder-se, anular-se, esquecer. Para traduzir esse sentimento de estar à margem do tempo, a melhor palavra que encontrei foi “ontem”.

JLG: Apesar da presença de uma forte dramaturgia, situas-te a ti mesmo numa atitude fotográfica documental?
AC: A dramaturgia provém do trabalho de enquadramento, da procura de lugares, do facto de as coisas não aparecerem simplesmente. Sou eu que provoco as situações: que vou aos locais tentar compreender, falar com as pessoas, tentar ir o mais longe possível e as coisas acontecem. Não coloco a mim mesmo a questão se se trata de documentário ou não. Estou muito marcado pelas imagens de todos os dias, como aquilo que vejo na televisão. É o lado visual que contribui para a construção do meu trabalho. Quando fotografo, faço uma síntese, procuro colocar nas minhas imagens tudo o que se passa à minha volta, ao nível político, social, familiar.
O que quero mostrar é a realidade com um pouco de ficção: não conto histórias íntimas, não faço juízos, desejo apenas traduzir o que sinto da vida, regressando a questões que são para mim essenciais.

Outubro de 2009