Imagens sonâmbulas

As obras que André Cepeda agora apresenta constituem o segundo volante do projecto Moving, inicialmente apresentado no Solar – Galeria de Arte Cinemática em Vila do Conde, Portugal. Denotando uma singular coerência interna, este projecto ancora-se num registo processual que vai privilegiar espaços e momentos que o nosso olhar tendencialmente negligencia. Mais do que não-lugares, estas representações correspondem a um repto para retirar do âmbito do não-olhar imagens que mesmo quando olhadas, não demonstram uma particular capacidade de se fixarem enquanto percepções peculiares. Assim, o que este autor propõe, ao contrário de toda a tradição fotográfica de “estrada”, que se estrutura mediante núcleos narrativos de carácter mais ou menos diarístico - através de uma introspecção idiossincrática, ou assumindo uma reflexão sobre condições sociais peculiares -, é conferir um peso especifico ao que a velocidade e a falta de pontos de vista estáveis que se justifiquem enquanto tal não permitiriam, à partida, considerar como campo de visão minimamente interessante. Ou seja, André Cepeda provoca interrupções em percursos onde a banalidade absoluta constitui um soporífero visual. O que surpreende, é aquilo que estas imagens, estes cortes nesse filme vagamente hipnótico que todos experimentamos ao percorrer auto-estradas e estradas ladeadas pela insignificância urbanística e natural, quando depuradas pelo seu olhar (concentrado na luz, nas relações espaciais e nos enquadramentos) conseguem produzir: uma estranheza pela familiaridade, uma emocionante capacidade evocativa no rigor quase escultórico da sua composição, ao, por exemplo, contrastar a frieza cortante dos rails de segurança com apontamentos de uma natureza ameaçada, mas resistente. É assim que estas imagens-sonâmbulas despertam para uma realidade verdadeiramente assombrosa: configurando momentos não vividos que colam à pele da nossa memória, tal como o sonâmbulo não consegue por vezes destrinçar o sono da vigília. A fotografia que abre a exposição, a que mais se distancia da tipologia estruturante da série, evoca exactamente um momento desses. A passadeira convida-nos ao atravessamento (o primeiro em toda a séria, pois nas outras imagens a estrada é um separador letal), a uma espécie de regresso a casa. Mas esta é uma casa habitada por uma luz misteriosa, as suas redondezas estão desertas, não se pressente qualquer resquício reconfortante de humanidade. Será esta solidão uma solidão bela ou horrível? Será esta uma representação de um sono ou de uma vigília? Será isto o real apreendido ou o real construído – ou melhor, como é que um real apreendido se confunde tanto com um real construído? É nestas flutuações significantes, que denotam um particular modo de olhar o mundo, que André Cepeda se vem movimentando com destreza e inteligência. Uma inteligência do olhar.

Miguel von Hafe Pérez