Ontem

Ontem é o título deste projecto que começou quando conheci o H., que estacionava carros à porta de minha casa. Como todos os dias passeava o meu cão, acabávamos por conversar com frequência. Mostrei-lhe o meu interesse em conhecer as ruas que ele percorria e os bairros por onde ele andava. Interessava-me conhecer aqueles territórios, as traseiras, as paisagens escondidas do Porto, os caminhos alternativos pelos bairros da cidade, locais a que, não conhecendo muito bem, me tenho vindo a dedicar há algum tempo. Trabalhávamos todas as semanas e por vezes vários dias seguidos. A ausência de tempo que sentia nos locais e nas pessoas que ia encontrando, o perigo e a dureza da realidade começou a interessar-me.

Pela primeira vez começo a fazer retratos. Perguntava-me, recorrentemente, porque andava a fotografar. E só mais tarde é que percebi que este projecto fazia todo o sentido para mim. A minha vida sempre se cruzou com histórias ligadas à droga. O facto de viver no centro do Porto faz-me confrontar com essa realidade todos os dias.

Ontem foi a melhor palavra que encontrei para descrever este estado de espírito, pois neste contexto a grande questão parece ser como se lida com o tempo. Como passar o tempo. Como passar o tempo com um corpo e uma mente, e o que fazer com eles. Esconder, refugiar, anular, esquecer. Tentar estar fora do tempo.

André Cepeda
Porto, 2008