o que significa o termo “paisagem” na fotografia de André Cepeda?

Num olhar atento e panorâmico, as imagens de André Cepeda são vistas de periferias, tapumes e vedações, margens de estradas e traseiras de casas. São paisagens, sim, mas aparentemente desqualificadas como “Paisagem”. O que as transforma, então, em motivos dignos do seu olhar e de todo o moroso processo de captação e fixação sobre um suporte que, pela sua dimensão, se aproxima mais da lógica do quadro do que da tradição fotográfica?

Desde o início do seu percurso que André Cepeda tem vindo a produzir uma fotografia cada vez mais rigorosa, processo que é visível no dispositivo técnico que usa – a câmara de grande formato, que permite a correcção de perspectiva –, numa operação que funciona a contra-ciclo em relação à aparente displicência do seu motivo. Imagens captadas como se fossem instantâneos informais do que vemos normalmente de relance, ou que não tem dignidade para nele assentarmos frontalmente o nosso olhar, necessitam de gerar uma intensidade numa qualquer zona da sua construção para poderem ter razão de ser. É aí, nesse fino limbo entre a dificuldade de nomeação de uma tipologia visual e o poder de captação da nossa atenção para um campo do visível que não constituiria o seu objecto natural, que Cepeda exerce a sua fotografia. Como se define, então, esse processo?

Primeiramente, as imagens funcionam em séries. Quer isto dizer que, para além das suas valências individuais, elas se inserem num sistema intermutável de referências, ou seja, cada uma das imagens adquire um sentido acrescido que lhe é delegado pela imagem seguinte e activa algo de poderoso na imagem anterior. Esse poder deriva de uma lógica de continuidade – um tapume cuja linha se prolonga por um talude na imagem seguinte, um vaso que possui uma forma semelhante a uma outra forma noutra fotografia –, mas também de uma recorrência temática: as formas de campos que delimitam espaços atravessam várias imagens, como se se tratasse de criar um tema comum cuja presença é quase subliminar, ou que se manifesta de forma discreta (tão discreta que pode passar desapercebida ao espectador menos atento). Assim, a fotografia de André Cepeda encontra um segundo veículo de especificidade: a paisagem, a sua lógica interna, inscreve-se numa lógica de olhar narrativo, por natureza disperso; ora o seu modo de procedimento é exactamente o oposto, solicitando uma atenção concentrada em relação a motivos narrativos – porque paisagísticos – e, ao mesmo tempo, objecto de subtis conexões a partir de um universo de referências vernacular.

Esta forma de lidar com a paisagem presente nas fotografias de André Cepeda encontra-se ligada a uma tipologia de deslocação. Se a paisagem foi, até ao pósguerra, uma tipologia de pensamento sobre a ordem e a hierarquia do campo visível, ela constitui se, a partir da sua reconversão em vista de um observador em movimento, num interesse pela periferia, até porque a ideia de centro se perde na deslocação do observador. Nesse sentido, a fotografia de Cepeda é tributária deste processo, relacionando-se com a arquitectura involuntária e cumulativa que é uma marca da realidade da cidade como campo vivencial.

Assim, a fotografia de Cepeda possui um intrínseco jogo com o realismo como dispositivo, tomado, no entanto, de uma forma irónica, na medida em que o real que se destaca nas sua imagens é, de facto, uma construção visual que, no entanto, não assume a teatralidade que poderia sinalizar a sua condição. É por isso que a sua versão da paisagem não tem qualquer resquício monumental, não ordena nem classifica – mas, pelo contrário, esculturalmente elege uma situação, procura a sua natureza tridimensional e capta-a, num jogo documental dúbio, promovendo a objecto do olhar o que só o é porque uma máquina fotográfica foi colocada à sua frente.

Para responder à pergunta colocada no início, a paisagem, na fotografia de André Cepeda, é uma procura do detalhe insignificante erigido à condição escultórica. Por isso a sua fotografia é tão próxima da escultura.

Delfim Sardo